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Roberto de Sousa Causo -- Escrever com o Coração

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Um Excerto de A Corrida do Rinoceronte
O sábado à tarde Eduardo passou dirigindo tranqüilamente pela cidade. Não era fácil, porém, controlar a manada de 650 cavalos. Precisara dos primeiros dias para se acostumar à brutalidade do menor arranque, aos pneus queimando em qualquer mudança de marcha. Fazer baliza era um pesadelo, que ele evitava o máximo possível.

Jantou em uma lanchonete tipo diner, depois assistiu a uma comédia para adolescentes no cinema local: "Dude, Where Is my Car?" Alguns garotos brancos cochicharam perto, no instante em ele se sentou. Não foi fácil ignorá-los.

Anoitecia, quando apanhou o carro e saiu para a avenida principal. Viu-se no fluxo de street machines e hot rods entre os automóveis "normais" que enchiam a cidade nos fins de semana, vigiados pelas onipresentes patrulhas da polícia. Eram Firebirds e Mustangs, Chevelles e Camaros com vários níveis de preparação, e carros antigos envenenados e modernizados com pinturas reflexivas e de cores berrantes, motores supercomprimidos, pneus magricelas na frente e imensos pneus traseiros. A maioria ostentava placas de South River. Com algum orgulho, notou que o seu Z/28 atraía olhares e dedos apontados. Até mesmo algumas garotas apontavam -- não apenas para o carro, ele percebeu -- e sorriam.

Era engraçado... Há um momento atrás sentira-se mal, isolado e ferido pelos olhares. O carro o protegia de algum modo e transformava os olhares de desprezo em admiração. Eduardo refletiu. Eram os dois extremos que faziam a vida social. Quando o grupo desprezava, e quando o grupo prezava. Quando segregava, quando integrava. Para a tribo dos street rodders, talvez o seu carro lhe desse o passaporte para a integração... Alguma integração. Em Upper Valley, seu discreto tom moreno, o cabelo duro, o isolavam. Na firma, onde havia outros negros, era o seu sotaque (Davies costumava fingir que não compreendia o que ele falava). Tudo parecia por demais arbitrário... E havia um outro aspecto: esta sociedade era temporária para ele. Estava ali a trabalho; ficaria por alguns anos -- senão três, seis... dez no máximo --, e depois retornaria ao que lhe parecia cada vez mais ser o seu verdadeiro lugar, o Brasil. Esqueceria completamente o seu contato com um racismo mais agressivo, comentando-o com os amigos aqui e ali, de vez em quando. Nesse instante um pensamento lhe ocorreu: Voltaria a ser mais um mulato como milhões de outros, grato pelo grau de palidez de sua pele, mas sempre embaraçado pela herança de sangue que corria em suas veias?

No Brasil havia sempre esse discurso de que o que segregava o negro na realidade era a pobreza. Questões de raça não importavam. Mas será? Quanto mais pensava no assunto, mais sentia que lá estivera em sua vida, o tempo todo, abafada e constrita, a marca do racismo. Sempre o fato de que se tornava necessário negar a cor, para ascender socialmente.

Voltaria ao Brasil e a uma realidade diferente, mas a pergunta estaria lá -- se fosse visto como negro, o seu talento e competência duramente conquistados bastariam?

Parou em um cruzamento, sem olhar para lugar algum. Ruminava o que acabara de pensar. Era uma perspectiva boa ou ruim, voltar ao que era?

Segundos antes do farol abrir, o rinoceronte passou diante dos seus olhos.

Eduardo piscou. O rinoceronte olhou para ele -- olho firme e escuro no centro de uma espiral de rugas, grande nódoa crescendo na cabeça comprida e adornada com dois chifres imensos. Um olhar de soslaio na fração do instante, e então suas narinas espirraram uma nuvem de umidade que se formou breve diante do focinho. Seu couro era escuro, cinzento, e o corpo tão comprido quanto o Chevrolet. Olhava firme para adiante e suas patas pistonavam contra o asfalto, num movimento vivo e leve.

Eduardo olhou em torno. Os outros viram também? Os motoristas e passageiros nos carros parados ao lado e atrás dele?

Rostos imóveis, concentrados no semáforo.

Tornou a olhar para o animal, meio que esperando que tivesse desaparecido. Mas não. Ele marchava ainda, metros adiante, subindo a rua. Então cruzou-a em diagonal. Uma pick-up que vinha na direção oposta freou. A mulher que a pilotava sacudiu a cabeça, aturdida. Por que tinha brecado? Eduardo teve a certeza de que ela não vira o rinoceronte, mas de algum modo reagira à sua presença.

O barulho de uma buzina o fez saltar no assento. Ao seu lado, um carro atravessou o farol agora verde, seguido de outro. Às suas costas uma fila de automóveis esperava que ele se decidisse a sair. Mais buzinas soaram.

Eduardo respirou fundo, deu seta para a direita, acelerou o Camaro, engatou a primeira e esperou. Um Volvo branco passou ao seu lado, o motorista encarando-o insistentemente. Atrás dele vinha um Fusca -- de todos os automóveis possíveis -- e Eduardo fez o seu Z/28 se lançar para adiante em um forte rugido de cavalos-vapor e num breve espirro de borracha queimada, e cruzar a frente do Fusca.

Entrou na avenida procurando pelo animal. Onde estava?... Entrou em uma rua transversal que começava na pista contrária, e lá o viu -- as ancas enormes rebolando no seu trote tranqüilo.

A zona central de South River terminava nessa rua, que se estendia para longe, transformando-se em uma alameda ensombrada por fileiras de árvores antigas e ladeada de grandes casas térreas.

Por quatro quarteirões ele seguiu o rinoceronte, até que as casas fossem substituídas por bosques esparsos e campinas que cresciam à margem da pista. Dali a larga tira de pavimento perfeito seguia até a intersecção com uma das estradas sem destino, de que Jennifer Adams lhe falara. O rinoceronte tomou uma pistas que se estendia para a esquerda, e acertou o passo no acostamento em que crescia grama mal-aparada. Eduardo perseguiu-o em silêncio.

Por mais de trinta minutos os dois seguiram pela estrada. A velocidade não podia ser muito alta, no trote do gigantesco bicho, e Eduardo temeu que o motor do Camaro, regulado para grande desempenho, fervesse a esse passo. Passou a deter o automóvel, esperar que a visão de distanciasse---

(que desaparecesse)

---e então a alcançava outra vez.

O rinoceronte saiu da estrada, ganhando um trecho de campina, pontilhado aqui e ali por pinheiros altos. Eduardo hesitou por um segundo, antes de segui-lo. A frente rebaixada do automóvel raspou a grama um par de vezes. Eduardo tinha acionado os faróis, minutos antes -- o sol já havia desaparecido por trás das montanhas -- e o facho de luz iluminava as pegadas que o pesado animal cavava na grama.

Espremeu o Camaro para passar pelo espaço entre as árvores, e então viu-se em uma antiga estrada de duas pistas. Nada do pavimento moderno que ficara para trás, mas um asfalto velho, esburacado aqui e ali, a faixa central esmaecida pelo tempo.

Mais árvores surgiam diante dele, à esquerda e à direita, cada vez maiores e mais velhas. Pareciam brotar do lusco-fusco, cerrando fileiras, formando paredes entrecortadas até que se abrissem para uma estreita ravina, um riacho serpenteando em sua parte mais baixa. Animal e automóvel cruzaram uma ponte de madeira, a partir da qual a estrada antiga se estreitava ainda mais.

Ao longe, viu que as montanhas cresciam à proa do Camaro, uma vasta floresta escalando suas escarpas e embaixo se espraiando em um largo paredão quase negro, erguendo-se no horizonte -- massa escura contra o pouco de luz que ainda se pendurava no ar frio.

Sentiu medo. O que estava acontecendo? Ele realmente seguia um rinoceronte para dentro da floresta desconhecida?

Pisou no breque. Desligou o carro, calando o suspiro do blower. Apagou os faróis. O animal continuou trotando -- desapareceu. Sua alucinação desapareceu.

Eduardo abriu a janela para deixar entrar a brisa, respirou fundo. "Tudo bem", pensou. "Não foi nada. Eu não vi o que acho que vi. Com certeza. Não vi coisa alguma."

Virou a chave na ignição, as luzes do painel acenderam-se. "Agora é só voltar pelo mesmo caminho..."

Ouviu um bufar meio bovino, e o rinoceronte surgiu diante do carro -- um fantasma insistente, mal-iluminado pelas luzes do carro. E em movimento. Parecia determinado a passar por cima dele, os chifres postados para o ataque, mas no último segundo ele se desviou para a esquerda, atingiu a frente do Camaro com o seu peito largo. Eduardo balançou no assento. O rinoceronte girou diante dele, bufou outra vez, agitou as orelhas.

-- Tudo bem! -- Eduardo gritou, em português, enquanto tornava a ligar o motor. -- Mostre o caminho.

Ligou o rádio para ter a companhia de alguma voz humana. A emissora tocava uma canção após a outra, de country meloso e comercial -- Shania Twain, Toby Keith e Faith Hill, rodando com ele no Camaro noite adentro, perseguindo o rinoceronte fugido dos seus sonhos.

O bicho virou a monstruosa cabeça para a direita. Eduardo viu claramente os chifres iluminados por seus faróis. Um chifre menor e reto, e aquele enorme e curvo, na ponta do focinho. Um olho brilhou à luz dos faróis, e o rinoceronte tornou a olhar para a frente.

Acelerou um pouco até emparelhar com o bicho.

Seu corpanzil parecia blindado -- grandes placas coriáceas nos flancos, mas que mal ocultavam a força animal dos músculos que se moviam por baixo. Devia ser muito pesado. Eduardo podia ver a massa de músculos, gordura e ossos se movendo para cima e para baixo, a cada passo. As pernas curtas batiam o chão e se curvavam graciosamente num ângulo de noventa graus, antes de se esticarem e tornarem a bater. Pelas janelas abertas do Camaro, podia sentir o seu cheiro penetrante. Uma alucinação que ativava todos os sentidos.

O olho negro fitou Eduardo, mas o rinoceronte não alterou o passo nem a tranqüila concentração que o guiava ao seu destino secreto. Havia qualquer coisa de peculiar em sua tranqüilidade, que trespassou o espanto que Eduardo sentia. O espectro animal era uma sombra viva que percorria a cidade e o campo, que cruzava riachos e bosques e penetrava mais fundo no desconhecido. Um propósito inquebrantável o guiava e o animava, propósito que se confundia com a noite e com a terra, com as árvores e com tudo o que viera antes e viria depois. Sozinho em seu carro, ouvindo as vozes fracas de outros seres humanos a cantar melodias melancólicas, Eduardo achou-se também parte dele. E então sentiu-se tranqüilo. E seguro. O rinoceronte ao seu lado -- seria mesmo possível que fosse outra coisa, alucinação ou sonho desperto? -- era pai e irmão mais velho, melhor amigo e companheiro de batalha. Era um lar semovente e de respiração pesada e passada leve. E foi assim que, pela primeira vez desde que chegara aos Estados Unidos, Eduardo se sentiu em casa, rodando ao lado de um fantasma ou visão animal, transplantada da África.

Não pôde racionalizar o que sentia, e então simplesmente deixou-se levar.

A estrada penetrou no bosque. A única luz era a dos faróis do Camaro, que espantavam sombras de troncos e galhos para longe, à direita e à esquerda. A pista adquiriu então uma inclinação para cima, e o sopé da montanha avultou-se diante deles.

E então o rinoceronte parou.

Eduardo saiu do carro, deixando a chave na ignição e os faróis acesos. Havia uma mancha pardacenta de couro, onde o bicho atingira o fino pára-choque. No rádio ligado, Clint Black cantava "did you ever wake up in the middle of a dream?"

No ponto em que estavam, a estrada velha abria-se, vazando para o lado direito, formando uma espécie de remanso, um pátio antigo que fora, com os anos, timidamente reocupado por mato e árvores. Forçando a vista, Eduardo viu ali alguns tambores de óleo, um velho motor enferrujando -- talvez o motor de uma bomba de puxar água. Adiante dele, para a esquerda, a estrada contornava o sopé da montanha e desaparecia entre as árvores. Havia uma abertura na rocha, cortada em ângulos retos. Uma das minas que dera o primeiro sopro de vida a South River.

O rinoceronte chamou sua atenção com um gemido agudo e um ruído não muito diferente do resfolegar de um cavalo. Eduardo olhou para ele e teve o olhar devolvido. Por um minuto ou dois, homem e animal ou homem e alucinação se confrontaram em silêncio, e em torno deles o ar se encheu de formas cinzentas e aladas, dezenas de asas batendo silenciosamente, apenas o menor fluf soando no ar frio. Somente corujas tinham um vôo tão quieto, Eduardo sabia. Seu olhar percorreu as formas revoantes, dezenas de corujas, de grande envergadura, espiralando e subindo, se dispersando com a mesma discrição suave com que haviam surgido.

Com agilidade surpreendente, o rinoceronte girou seu corpanzil e marchou para dentro da floresta.

Por ali o Camaro não podia entrar. Eduardo correu até ele, desligou os faróis e o rádio, e retirou a chave da ignição, antes de se meter por entre as árvores.

Esta era a floresta temperada do Noroeste do Pacífico, densa e sombria, rica em espécies e aniquilada em quase noventa por cento. Este canto seria um recorte sobrevivente, Eduardo imaginou. Conservava ainda o senso do mistério, e ele esperava ver tudo -- de um urso pardo ao Sasquatch -- menos um rinoceronte a avançar inexoravelmente, achatando arbustos e entortando troncos pelo caminho.

Um triste piar, ecoou na floresta: Uh-uh, uh! Pii-ii-Uh! Duas vozes que, alternando-se em chamados e respostas, davam vida à forma estática da floresta.

No intervalo dos piados, apenas os ruídos do rinoceronte o guiavam na trilha por entre as árvores. Às vezes o bicho se detinha e resfolegava ou emitia um gemido anasalado, como que impaciente pelo avanço às cegas de Eduardo. Por sua vez, ele se perguntava o que era tudo aquilo e para onde era levado. Ao seu lado, as gigantescas sequóias do tipo conhecido como redwoods alteavam-se como as colunas dos salões do Olimpo, seus troncos desaparecendo acima de sua cabeça, na escuridão da noite. Perto delas a marcha era mais fácil, pois pouco crescia à sua sombra. Eduardo e o rinoceronte tiveram de controlar sua impaciência, pois a jornada durou mais de uma hora, até completar-se.

A floresta de pinheiros, cedros e redwoods acabava subitamente, atrás do que parecia a primeira projeção rochosa da cadeia de montanhas onde ficava a mina abandonada. O terreno transformava-se em um declive desse ponto em diante. A ausência de copas acima de sua cabeça permitia a Eduardo ver alguma coisa à luz da lua, estendendo-se diante dele. A imagem de que a floresta acabava ali era correta. Amparando-se num tronco remanescente, Eduardo viu que não havia nada ali além de um milhão de tocos cortados à raiz do chão, onde antes se erguera um milhão de árvores.

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