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Roberto de Sousa Causo -- Escrever com o Coração

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Um conto inédito de fantasia...

 

PELOS DENTES DA BALEIA

Roberto de Sousa Causo

 

   A breve era das Grandes Navegações de Pindorama foi prefigurada pelo encalhe de uma baleia lactante nos sambaquis da aldeia de Tibirá. Uma baleia gigante como nunca antes vista pelos homens, mulheres e crianças da aldeia, que logo reconheceram os mapas de todas as terras e mares do mundo, de vários mundos, riscados em seus dentes, cada um deles mais largo que o peito de um guerreiro.

O xamã Saraí logo ordenou que as tetas do monstro fossem cortadas de sua carne e o leite espremido pelas mãos das meninas pré-púberes da aldeia. Setenta e oito vasos de cerâmica foram cheios até a boca com o leite rosado de sangue, e lacrados para serem no futuro bebidos com ávara parcimônia, apenas pela boca de mulheres adultas que já haviam parido e aleitado.

Então Saraí ordenou que a aldeia fosse transferida para um local distante um dia inteiro de viagem ao norte, junto ao delta do Grande Rio, enquanto por gerações inteiras a carcaça da baleia-mãe era lentamente devorada por um milhão de gaivotas e quatrocentos e vinte e oito milhões de caranguejos. Ocasionalmente uma onça ou um cão-do-mato mordiscava da carcaça, para enlouquecer lentamente nos grotões mais densos da floresta, e deles a nova aldeia de Tibirá era obrigada a se proteger com paliçadas e patrulhas de guerreiros armados de lanças e tacapes. Mesmo a um dia de distância do cadáver gigante da baleia, a aldeia não deixou de ser também empestada pelo cheiro da carne marinha apodrecida, as entranhas mais insuspeitas reveladas pelo tempo e pelo dentes ou garras dos animais que dele se alimentavam.

Na aldeia, durante todo esse tempo, tupiniquins de audácia estudavam os mapas gravados no esmalte dos dentes, e planejavam. O há muito falecido xamã Saraí profetizara que uma nau de proporções descomunais deveria ser construída a partir dos ossos descarnados da baleia-mãe, e a cada ano uma das mães de maior sabedoria da aldeia bebia uma cuia rasa do leite postumamente ordenhado, e dele extraía a confirmação da profecia e outras e novas dádivas proféticas sobre a vida da aldeia e o futuro de Pindorama.

Então, três gerações após o encalhe da beleia-mãe, Mãe-Daidéa bebeu do seu leite e declarou que o esqueleto estava enfim limpo o bastante para que se iniciassem os trabalhos de construção do grande navio.

A aldeia toda mudou-se para o antigo local, depois que os guerreiros e as mulheres adultas passaram várias fases da lua raspando os ossos, enxaguando-os com a água do mar e revirando a areia para afastar os fantasmas do fedor de decomposição e morte. Levaram os moradores da aldeia os dentes-mapas e os vasos com o leite-sangue e todos reconstruíram em torno da oca sagrada que os guardava as suas novas moradas e refizeram à luz de novas fogueiras os planos para a grande investida sobre o Mar-sem-Fim.

Dos ossos arqueados da cabeça foi feita a proa do navio, revestida da mais forte madeira-de-lei selada com coral e com a lama fóssil das pororocas. Das costelas e vértebras montou-se a quilha abaulada. Dos ossos das nadadeiras subiram mastros e suportes e as velas tecidas por duzentas mulheres, meninos e meninas foram erguidas sobre eles, mas antes tingidas com o vermelho do ibira-puitá e com o pó amarelo do ipê. Todos os trabalhos seguiram em boa velocidade, para o seu término próximo à Grande Conjunção. Mãe-Daidéa batizou o navio de Espírito do Mar, derramando sobre a sua proa todo um vaso do precioso leite mágico.

Os sábios da aldeia, no tempo em que era construída a nau, dedicaram-se a escolher capitão e tripulantes. Foi decidido que nove mães estariam sempre a bordo, para beber do leite mágico da baleia e assim antecipar os percalços da viagem. A primeira delas e a sua tenente seria Pitará. O capitão seria o valente Arivaru, que enfrentara mais correntes do Grande Rio e ondas do Mar-sem-Fim do que qualquer outro guerreiro conhecido dos habitantes da nova Tibirá.

Para a primeira viagem escolheram a ilha que foi chamada Jequiraí. Segundo um dos mapas-dentes, ela não distava muito do litoral de Tibirá, comparada a outras terras assinaladas no esmalte já amarelecido.

Quando as três luas entraram em conjunção formando um cacho de bolas prateadas no céu noturno, embarcaram os tripulantes em alegre obediência às profecias, as nove mães despediram-se dos seus filhos e filhas e em terra ficaram todos a ver partir o que restara da baleia-mãe — e o que prometia o futuro de Pindorama.

*

O Espírito do Mar levantou velas à noite, rapidamente deixando para trás as fogueiras da aldeia e penetrando no duplo-luar que iluminava o caminho, mas não ofuscava o brilho efêmero das estrelas cadentes.

Assim que a terra escorreu por trás do horizonte e os pássaros se cansaram de seguir o Espírito do Mar, a nau deparou-se com um cardume de baleias, que borrifava o ar noturno com sua respiração nebulosa. Grandes baleias-mães e filhotes e uns poucos machos nadando exibidos na borda do bando maior. Nenhuma porém grande como a baleia que há tanto tempo havia encalhado nas praias da primeira Tibirá. Sentindo o cheiro familiar ou a forma como cortava as ondas, vieram ter com o navio e saber que estranha criatura, artefato ou aparição era esta.

Acompanhando a aproximação das baleias a partir do estreito passadiço, Arivaru convocou as mães e mandou que uma cuia do leite-sangue fosse servida. Enquanto bebiam as mulheres, juntou-se ao cardume dezenas de outros, vindos de todos os quadrantes do horizonte sem marcas que a todos circundava. Eram muitas baleias, baleias de muitos tipos, todas expirando água e inspirando ar, tanta água borrifada no ar que as muitas baleias em verdade suspiravam uma chuva entre arcos-íris, que vinha banhar os conveses da nau. O agitar dos muitos corpos das baleias balançava o navio, e as baleias mesmas formaram uma intransponível barreira.

Depois de bebida a última gota do leite, todas as mulheres se calaram, enquanto Arivaru esperava delas que falassem. Mas o valente Arivaru conhecia o valor da paciência, e esperou mais.

Antes porém que a primeira palavra saísse dos lábios ainda manchados do leite rosado, o capitão viu o cerco de baleias abrir-se um tanto, e no centro da grande comunhão de animais marinhos emergiu um monstro nunca visto.

Arivaru subiu no mastro mais alto, para reconhecer todo o seu corpanzil azulado semi-submerso na água, e saber se era mesmo uma baleia, como parecia ser e era. Mas nunca uma baleia deste tamanho…

Quando o capitão desceu do mastro por uma corda de cipó, as mulheres o esperavam no convés principal. Pitará, a primeira mãe e a segundo em comando, disse a ele, de olhos muito abertos:

— Fala o monstro, por minha boca: “Quem são vocês, que nadam sobre as águas, nos ossos de minha mãe?”

Arivaru um tanto demorou, para entender. Poderia ser, que a gigante-baleia fosse cria da Baleia-Mãe que deitara à praia de Pindorama, há tantas estações passadas?

— Ouve o monstro, por seus ouvidos, Pitará? — perguntou o capitão.

— Sim, Arivaru. Mas fale rápido, pois o gigante é impaciente.

— Somos homens e mulheres da terra antiga de Pindorama, da aldeia de Tibirá — explicou o capitão —, onde há muito uma baleia encalhada trouxe ao nosso povo o presente de muitos mapas de terras distantes, cravados em seus dentes. Foi dito que de seus ossos deveríamos fazer um navio capaz de cruzar o grande mar, até uma das terras descritas a riscos, nos dentes da baleia.

— E o leite de minha mãe, que ainda muito haveria de alimentar a mim? — perguntou o monstro, pelos lábios salivosos de Pitará.

— Sim — Arivaru admitiu —, pois o leite é mágico e permitiria a nós encontrar o caminho com maior facilidade.

— Não o seu caminho, porém — o monstro disse. — Sei que desejam o destino da ilha de Jequiraí, mas devem ir ao invés até a mágica terra de Ó-Brasih, terra-irmã de Pindorama e destino verdadeiro de minha mãe. Ela enganou-se, tomando uma pela outra após perder-se de mim em uma tempestade, mas agora cabe ao povo de Pindorama navegando em seus ossos levá-los ao descanso a ela prometido. Seu destino é Ó-Brasih.

Arivaru ponderou. Pela primeira vez, desviou os olhos da bela Pitará e os dirigiu à baleia gigante.

— Preferiria então retornar à nossa terra de Pindorama, se o caminho a Jequiraí proibido está — disse.

O monstro soergueu a metade dianteira do seu corpanzil imenso e o deixou deitar-se novamente contra a água, levantando uma onda que fez correr para o alto e para o baixo outras baleias menores que o circundavam — e que fez gemer as estruturas do Espírito do Mar, atirando tripulantes aos conveses e Pitará aos braços de Arivaru.

— Seu destino é Ó-Brasih — ela cochichou a ele. — E nenhum outro. Nunca mais retornarão a Pindorama, não na mesma nau em que agora viajam, pois os ossos de minha mãe devem repousar, no lugar prometido.

Arivaru endireitou-se e se separou devagar de Pitará.

— Mas que caminho seguir?

— Pelo dente maior da frente — disse o monstro, pela voz da mulher.

*

A gigante-baleia, filho da baleia-mãe, agora já seu cortejo de baleias menores, guiou o Espírito do Mar por várias léguas da jornada, e apontou o caminho, antes de despedir-se novamente falando pela boca espumosa de leite-sangue, de Pitará.

— Deste ponto em diante, o dente os guiará. A mim mesmo as águas de Ó-Brasih e a visão de suas terras são proibidas. Vocês mesmos lá viverão em paz e na prosperidade da terra, se ficarem apenas nas praias e junto aos rios. Nunca entrem na floresta, pois ela é guardada por um jaguar de grande ferocidade, que de vocês faria alimento.

— É injusto de você fazer com que nunca mais vejamos a nossa Pindorama — Arivaru tomou coragem de dizer.

— Vocês viajaram mais longe do que qualquer homem e mulher de antes — disse a baleia. — Contentem-se com isso. Se tentarem o retorno, saibam que todas as baleias do grande mar estão avisadas de dar de vocês o alerta, e eu virei com todas elas, para enviá-los todos às profundezas.

E então ordenou que todo o leite fosse deitado ao mar, no rastro do navio, por todo um dia. À noite os tripulantes ainda ouviam o monstro a nadar e a suspirar como o vento nas árvores, enquanto bebia o gole derradeiro do leite que dizia lhe ter sido roubado.

Pitará, que ainda tinha o líquido mágico em seus intestinos, contava a Arivaru e às mulheres-de-visão que a gigante-baleia sonhava com o espírito da mãe e com terras ainda mais distantes, destinos longínquos prefigurados nos cascos das tartarugas, sugeridos nas correntes mais profundas do Mar-sem-Fim, e que um dia ele ainda iria percorrer em sua vida de centenas de estações.

*

Mas a verdade é que Arivaru mentiu e esperto foi. Enquanto a baleia-monstro embriagava-se de visões, ele escondeu e sonegou um último barril do leite-sangue, por valorizar o seu poder de dar informação, que tão necessário seria, ao chegarem a Ó-Brasih. E como o dente maior da frente afiançara em seu desenho, seguindo a ordem das correntes traçadas e o desfile de recifes apontados, o Espírito do Mar encontrou de velas altas e cheias o caminho, e após muitos dias e noites, conforme o prometido a nau foi de propósito encalhada na praia da terra mágica. Tudo o que era dos homens e mulheres desceu de seus ossos, que ficaram a amarelar ao sol, também conforme o prometido, símbolo de começo e fim para os que neles navegaram.

Nas praias e ao longo dos rios de Ó-Brasih viveram os homens e mulheres, e tiveram filhos, e saudades tiveram da aldeia deixada para trás. Arivaru tomou Pitará por sua, e Pitará o tomou por dela, e os dois fizeram muitos curumins, a quem contaram sua aventura pelo Mar-sem-Fim, por vezes infinitas.

Um dia porém Arivaru cansou-se da fácil vida que o mar e os rios proviam. Foi tomado de curiosidade pelo que havia no coração da floresta que a todos cercava. Aventura, ele queria, pois já também se cansara de viver apenas as aventuras do passado.

Então Arivaru e Pitará beberam os dois o leite oculto, esperando assim antecipar o que haveria em seu caminho. De mãos dadas penetraram os dois na floresta e diante de sua visão tornada mágica pela bebida desfilavam todos os detalhes mágicos testemunhados pelas árvores de muitos mil anos, das pedras de muitos milhões de anos, das criaturas que por ali viviam e para a floresta traziam a sua contribuição de nova magia.

E por isso apenas — por estarem tão somente atentos à visão das muitas eras e das muitas mágicas — não viram a fera-jaguar, que, escura como a noite, sorrateira como um deus, fez dos dois enfim alimento.

*

Comeu muito, o jaguar, e por muitos dias. Devorou a carne, mastigou os ossos e lambeu as vísceras ainda empapadas do leite mágico, que também a ele trouxe visões mágicas. O jaguar contudo nada viu de outras terras e das rotas que a elas levavam. Nada viu de tempos passados ou futuros. Viu apenas do interior do homem e da mulher que havia comido. Viu mais — do interior dos homens e das mulheres que eles dois haviam antes conhecido e amado, pois o amor é como os veios de metal que, sob a terra, mantém-na unida. Viu das coisas que os homens e mulheres de Pindorama tocaram e construíram com amor nas mãos, e delas todas tornou-se amante.

Desses restos que eram maiores do que o todo, o grande jaguar negro soube dos homens e mulheres e crianças a sua linguagem e os seus pensamentos. Devagar, ele caminhou até as margens de Ó-Brasih, ele mesmo noite em busca das margens do alvorecer, e ali falou a todos os que haviam chegado nos ossos da baleia, guiados pelos dentes da baleia, e aos seus filhos.

E a eles ofereceu o coração misterioso de Ó-Brasih.

Eles viveriam e prósperos seriam, sem limites, sem fronteiras. Juntos, o jaguar e o seu povo viveriam todas as aventuras desejadas, ocupariam toda a terra mágica sob o duplo luar, e por todo o tempo vindouro, enquanto os ossos amarelavam nas areias do seu destino.

"Pelos Dentes da Baleia", um conto com clima de fábula, foi analisado no "Balaio de Texto", uma oficina literária conduzida pelo escritor João Silvério Trevisan, para o SESC On-line.